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23.2.11

Wordfast anywhere

Uma dos fados do profissional de tradução é que seu ofício lhe permite levar seus quefazeres para seu lar. O Wordfast, que conhece o tradutor como a palma de sua mão, disponibilizou uma ferramenta que pode intensificar ainda mais essa sina: é o . O nome já diz tudo: em qualquer lugar! O Wordfast se lança, dessa forma, na neo-tendência – a nova ordem mundial do universo dos softwares – chamada cloud computing.
Computação em nuvens não é nada mais que softwares instalados em servidores, em vez de em PCs, evitando-se assim a quebra de segurança em troca de funcionalidades diversas. Várias Empresas já disponibilizam essa nova mania para seus usuários, a computação em nuvens, principalmente as ferramentas Google e Microsoft, grandes interessadas no negócio.
O dá ao usuário a possibilidade de se utilizar da ferramenta sem precisar instalá-la em seu PC, além de ser possível acessá-la de qualquer lugar, on-line, com todas as propriedades que a versão “off” tem. Você também pode uploadar suas memórias, glossários, arquivos etc. Se cadastrando no site, você pode carregar no aplicativo arquivos .txt, .txml, .doc, .docx, .rtf, .ppt, .xls, .mif (FrameMaker), .inx (arquivos InDesign), e .pdf, mesmo em .zip.
É uma ferramenta bem revolucionária. Agora não há férias certas para o pobre tradutor!

28.1.11

La Dernière Translation

by Millôr Fernandes
When an old translator dies
Does his soul, alma, anima,
Free now of its wearisome craft
Of rendering
Go straight to heaven, ao céu,
al cielo, au ciel, zum Himmel,
Or to the hell - Hölle - of the great
traditori?
Or will a translator be considered
In the minute hierarchy of the divine
(himmlisch)
Neither fish, nor water, ni poisson ni l'eau
Nem água, nem peixe, nichts, assolutamente
niente?
What of the essential will this
mere intermediary of semantics, broker
of the universal Babel, discover?
Definitive communication, without words?
Once again the first word?
Will he learn, finally!,
Whether HE speaks Hebrew
Or Latin?
Or will he remain infinitely
In the infinite
Until he hears the Voice, Voz, Voix, Voce,
Stimme, Vox,
Of the Supreme Mystery
Corning from beyond
Flying like a birdpássarouccelopájarovogel
Addressing him in...
And giving at last
The translation of Amen?

- translated from Brazilian Portuguese by Clifford E. Landers, Literary Translation - A Pratical Guide, p. viii.

25.1.11

The Translator’s Invisibility

"I see translation as the attempt to produce a text so transparent that it does not seem to be translated. A good translation is like a pane of glass. You only notice that it’s there when there are little imperfections — scratches, bubbles. Ideally, there shouldn’t be any. It should never call attention to itself."
Norman Shapiro

22.1.11

Boa sorte




Boa Sorte / Good Luck
Composição: Vanessa da Mata e Ben Harper

É só isso
Não tem mais jeito
Acabou, 
Boa sorte
Não tenho o que dizer
São só palavras
E o que eu sinto não mudará

Tudo o que quer me dar
É demais, é pesado
Não há paz
Tudo o que quer de mim
Irreais
Expectativas desleais

That's it
There is no way
It's over
Good luck
I have nothing left to say
It's only words
And what l feel
Won't change

[Refrão]
Tudo o que quer me dar (Everything you want to give me)
É demais (It too much)
É pesado (It's too heavy)
Não há paz (There's no peace)
Tudo o que quer de mim (All you want from me)
Irreais (Isn´t real)
Expectativas (Expectations)
Desleais

Mesmo, se segure
Quero que se cure
Dessa pessoa que o aconselha
Há um desencontro
Veja por esse ponto
Há tantas pessoas especiais

Now even if you hold yourself
I want you to get cured
From this person
Who advises you
There is a disconnection
See through this point of view
There are so many special people in the world
So many special people in the world... in the world
All you want all you want
[Refrão]

Now I’m falling, falling into the night,
Now I’m falling, falling into the night (into the night),
I am falling, falling into the night,
We're falling, falling, falling into the night (bom encontro é de dois).

9.1.11

O consenso da dessemelhança

Que o português falado e escrito no Brasil conserva distanciamentos naturais do português de Portugal e de outras partes do mundo, isso todos já sabem; mas quando o assunto é colocação de pronomes oblíquos átonos, aí a coisa esquenta. Temos nesse objeto uma das maiores, ou talvez a maior das evidências dessa disparidade.
Seja na escrita seja na língua falada, a preferência dos brasileiros é próclise, mesmo que ocorra em abertura de períodos. Sei que os trovões gritadores da dialética gramatical atroaram agora mesmo; por isso, me permitam dizer que há, obviamente, as ressalvas adequadas quando o caso é regulamento culto.
A linguística não nos seria bem útil neste mote? A próclise, justifica Sacconi, é favorita dos brasileiros por causa dos “padrões fonéticos por nós utilizados”, que são diferentes dos aplicados pelos lusitanos.
O Novo Manual da Redação da Folha de São Paulo é particularmente esclarecedor; ele explica:
Os pronomes oblíquos (me, te, se, lhe, o, a, nos, vos) são pronunciados de forma diferente em Portugal e no Brasil. Jamais ocorreria a um português, por menos instruído que fosse, dizer: Me parece que. O e do me praticamente não é pronunciado em Portugal e assim o me antes do parece formaria um encontro consonântico de difícil pronúncia: m'p'rece q. (p. 61, 1992)

Acresço, de forma parentética, ainda outro pensamento de Sacconi:
Não convém usar o hífen nos tempos compostos e nas locuções verbais, pois, na fala brasileira, o pronome oblíquo se liga foneticamente ao verbo principal, e não ao verbo auxiliar, justamente por essa razão é que se ouve e vê comumente:
Vamos nos unir! (Na pronúncia: Vamos nozunir!)
Íamos nos retratar. (Na pronúncia: Vamos nosretratar.)
Mesmo quando aparece um fator de próclise, nos tempos compostos e nas locuções verbais, a preferência, na fala brasileira, é pela colocação do pronome solto entre os verbos. Se não, vejamos:
Não vamos nos aliar a corruptos!
Já íamos nos separar!
Dificilmente entre nós encontramos a colocação típica de Portugal:
Não nos vamos aliar a corruptos!
Ou: Não vamos aliar-nos a corruptos!
nos íamos nos separar!
Ou: Já íamos separar-nos!
Nos tempos compostos, o pronome só não poderá aparecer após o particípio. Assim, temos estas colocações:
Eu me tenho deliciado com Machado de Assis.
Eu tenho me deliciado com Machado de Assis. (Preferida no Brasil)

Essa é uma “característica do português do Brasil que não é mais possível desprezar” (1997, Eduardo Martins, Manual de Redação e Estilo O Estado de São Paulo):
Ele estava se preparando para sair. / Falta d’água pode se agravar hoje. / Ele tinha se revoltado contra o pai. / Devia estar se aborrecendo com tudo aquilo. / Queria se livrar do amigo. / Vai se casar esta semana. / Esses homens podem nos ajudar. / Venho lhe trazer o meu apoio. / Tinha nos decepcionado (p. 70).

Fechados os parêntesis, parece que a dissonância linguística entre nós, irmãos de língua, se dá porque o que chamamos de pronomes oblíquos átonos já não assim tão átonos para os brasilianos:
No Brasil, os pronomes oblíquos têm uma pronúncia mais acentuada. Já deixaram de ser átonos e caminham em direção ao tonalismo; hoje são semitônicos. (O Novo Manual da Redação da Folha de São Paulo, p. 61)
Na pronúncia do Brasil, as formas pronominais oblíquas não são completamente átonas; são, antes, semitônicas. Assim se explica por que entre nós é predominante a tendência para a próclise: Ele terá de se calar. É o que eu queria lhe dizer. As pessoas foram se retirando. Me empreste o livro. (1984, Domingos Paschoal Cegalla, Novíssima Gramática da Língua Portuguesa, p. 444)

Observe atentamente no exemplo acima, onde se diz: “Me empreste o livro”, por Cegalla. Temos, portanto, ocorrências não somente quando o âmbito é a língua falada, pois foi sem reverenciar Napoleão Mendes e seu cabedal de ilustres nomes arrolados no Dicionário de Questões Vernáculas (1994, p. 445) que Érico Veríssimo, Rubem Braga e O Globo se juntaram a Cegalla para iniciar suas frases com próclise:
Me puxou para um lado e me contou que cancelou a viagem.” (Érico Veríssimo)
Me dê esse canivete, meu irmão.” (Rubem Braga)
Me deram até um contrato. Pensei: ‘Meu Deus, eu não entendo nada de televisão’.” (O Globo)
Não obstante, nos exames a que se precede no país há uma notória e nem sempre justificada preferência pela colocação pronominal de uso em Portugal, e não pela nossa topologia”. (Nossa Gramática Contemporânea, p. 360)

Por fim, algumas considerações a mais de um ou dois manuais de redação:
·         A situação dos pronomes pessoais oblíquos em relação aos verbos é diferente no Brasil e em Portugal: há diferença também entre a linguagem falada e a linguagem escrita.
·         O pronome oblíquo abre a frase na linguagem falada: “Me dê a faca.” No jornal, essa forma não é aceitável, a não ser em textos de cronistas.
·         É de uso mais comum no português do Brasil a ênclise (verbo antes do pronome): “Ela deve me ajudar” (em Portugal, “ela deve-me ajudar”).
·         Deve-se evitar a mesóclise (o pronome “dentro” do verbo: “fá-lo-ei”), que soa mal ao ouvido brasileiro. (O GLOBO, Manual de Redação e Estilo - São Paulo, 1994)
·         Trata-se de questão problemática. Há diferenças entre o padrão português e o brasileiro.
·         Com exceção de um ou outro caso, a tendência da Folha é adotar a colocação pronominal brasileira. (2010, Folha de São Paulo, Manual da Redação)

Termino, assim, em lugar nenhum e como comecei: no consenso da dessemelhança.
(Fidus)

7.1.11

Google Ngram Viewer

 O Google lançou uma ferramenta curiosa: um sistema que faz uma varredura em mais de cinco milhões de livros, pesquisando o uso de palavras nos últimos 508 anos (http://ngrams.googlelabs.com/). O sistema exibe, numa linha do tempo cujo período é escolhido pelo usuário, um gráfico comparativo do uso entre mais de uma palavra.
 Essa é mais um utensílio fantástico do Google, um instrumento útil para os que lidam com as palavras, visto que é possível, entre muitas outras coisas, aferir o valor histórico de determinados termos no nicho literário, âmbito de varrição do sistema.
 Ponto negativo: não temos em português 'ainda'(?).
 Bom, enquanto não sai em língua portuguesa, vamos ver se para nós, os que lidam com as palavras, inclusive inglesas, além de uma brincadeirinha divertida, quem sabe numa hora dessas esse troço tenha alguma serventia graúda.

3.12.10

A nova língua, filha da lusa

A nova língua, filha da lusa, nasceu no dia em que Cabral aportou no Brasil. Não há documentos, mas é provável que o primeiro brasileirismo surgisse exatamente no dia 22 de abril de 1500. E desde então não se passou dia, talvez, em que a língua do reino não fosse na colônia infiltrada de vocábulos novos, de formação local, ou modificada na significação dos antigos.

Hoje, após quatrocentos anos de vida, a diferenciação está caracterizada de modo tão acentuado, que um camponês do Minho não compreende nem é compreendido por um jeca de São Paulo ou um gaúcho do sul.

Quer isto dizer que no povo –– e a língua é criação puramente popular – a cisão já está completa.

Nas classes cultas a diferença é menor, se bem que acentuadíssima, sobretudo na pronúncia e no emprego das palavras novas. (Montero Lobato, "O Dicionário Brasileiro)

18.11.10

Linguagem brasileira

(Que a Academia) viva e se transforme. Que admita nela as coisas desta terra informe, paradoxal, violenta, todas as forças ocultas de nosso caos. São elas que não permitem a língua estratificar-se e que nos afastam do falar português e dão à linguagem brasileira esse maravilhoso encanto da aluvião, do esplendor solar, que a tornam a única expressão verdadeiramente viva e feliz da nossa espiritualidade coletiva. Em vez de tendermos para a unidade literária com Portugal, alarguemos a nossa separação. Não é para perpetuar a vassalagem a Herculano, a Garret e a Camilo, como foi proclamado ao nascer da Academia, que nos reunimos. Não somos a câmara mortuária de Portugal! (José Pereira da Graça Aranha, imortal fundador e rebelde da Academia, 38ª cadeira)

11.11.10

Uso do artigo

Não satisfeito com a tendência ao lusitano de Napoleão, cacei mais perto de nossa alma brasileira o uso do artigo com possessivo. Mesmo O Manual de Redação e Estilo do Estado de São Paulo, napoleônico que é, pareceu-me inseguro na matéria ao dizer que “é facultativo o uso do artigo antes de possessivo que acompanha um substantivo... Para muitos autores, com a omissão do artigo a frase ganha em leveza. Assim, a forma Sua mãe, seu pai e seu irmão cantam bem tem mais ritmo que A sua mãe, o seu pai e o seu irmão cantam bem.” (1997, pág. 42).


Gostei mesmo foi do Manual de Redação e Estilo O Globo, de Luiz Garcia:

Artigos definidos e indefinidos usam-se com parcimônia de avarento e precisão de relojoeiro: se não têm o que fazer na frase, são entulho que prejudica a fluência e enfeia o estilo. Por outro lado, quando faltam o sentido pode ficar turvo e o estilo se tornará desagradavelmente telegráfico...
Em geral, dispensa-se a soma artigo definido + adjetivo ou pronome possessivo: “Ele ajudou nosso esforço” e não “ele ajudou o nosso esforço”. Ou: “Ele mexeu os pés” e não “ele mexeu os seus pés” (1994, págs. 103-104)
Depois de ler isso me lembrei daquele que mamou brasilina; ouçamos, pois, o mestre apaixonado pelo Brasil:


Se a transformação por que o Português está passando no Brasil importa uma decadência... ou se importa, como eu penso, uma elaboração para a sua florescência, questão é que o futuro decidirá... Sempre direi que seria uma aberração de todas as leis morais que a pujante civilização brasileira, com todos os elementos de força e grandeza, não aperfeiçoasse o instrumento das ideias, a língua.



José Martiniano de Alencar

Todos os povos de gênio musical possuem uma língua sonora e abundante. O Brasil está nestas condições; a influência nacional já se faz sentir na pronúncia muito mais suave do nosso dialeto.

...


Nesta [Iracema], como em todas as minhas obras recentes, se deve notar certa parcimônia no emprego do artigo definido, que eu só uso quando rigorosamente exigido pela clareza ou elegância do discurso. Isto que nada mais é do que uma reação contra o abuso dos escritores portugueses, que empregam aquela partícula sem tom nem som, me tem valido censuras de incorreto.

Há quem tache essa sobriedade no uso do artigo definido de galicismo, não se lembrando que o latim, donde provém nossa língua, não tinha aquela partícula, e, portanto, a omissão dela no estilo é antes um latinismo. Mas a mania do classismo, que outro nome não lhe cabe, repele a mínima afinidade entre duas línguas irmãs, saídas da mesma origem. Temos nós a culpa do ódio que semearam em Portugal os exércitos de Napoleão?

O mais interessante, porém, é a maneira de argumentar dos puristas. Às vezes, quando se trata de uma nova palavra ou locução, repelem-na pela razão peremptória de não se encontrar nos clássicos. Outras vezes, intrometem-se a criticar dos clássicos, determinando o que se deve imitar e o que evitar. Manifesta contradição: ou prevalece a respeito do estilo a razão de autoridade, e neste caso eles são os mestres, respeitai-os, ou prevalece a autoridade da razão, e nesse caso a questão é de opinião: à vossa contraponho a minha.

Os nossos melhores clássicos com muita elegância omitiram o artigo definido sempre que o pronome possessivo o tornava escusado; assim diziam eles meu filho, minha pátria, sua alma\ e não o meu filho, etc. Com que se hão de sair os puristas? Que o uso cheira afrancesismo e deve-se evitar.

O que se deve e com muito cuidado evitar é a incorreção gramatical, o pleonasmo contínuo que há no emprego do artigo, por uma espécie de abuso ou lapso de língua. Dá-se neste caso o mesmo que em grande número de verbos a que o vulgo juntou a letra a pela facilidade de sua pronúncia, como alevantar, amontoar, acostumar, etc. Da mesma forma escapa o artigo, que entretanto afeia e desalinha o discurso.

O uso do artigo, mesmo antes do pronome possessivo, pode tornar-se elegante e expressivo, servindo para indicar um objeto ao qual se faz uma alusão remota. Assim quando dizemos o nosso viajante, isto é, o viajante de quem falamos. Também em muitos casos a eufonia exige a interposição dessa partícula supérflua para suavizar um som áspero, ou desvanecer uma cacofonia. (José de Alencar - Iracema, Pós-Escrito II)

25.10.10

Pronominais

Dê-me um cigarro
Diz a gramática
Do professor e do aluno
E do mulato sabido
Mas o bom negro e o bom branco
Da Nação Brasileira
Dizem todos os dias
Deixa disso camarada
Me dá um cigarro
ANDRADE, Oswald de.
Sel. de textos de Jorge Schwartz.
São Paulo: Abril Educação, 1980. pág. 22-23 (Literatura Comentada)

24.9.10

Sopa

"... Em termos de vocabulário há regionalismos muito interessantes. Um dia eu estava em Belém e pedi uma informação na rua, sobre onde ficava tal escola. O sujeito me disse que era fácil, que era só tomar uma sopa, aquela sopa que estava logo ali junto ao muro. Eu me espantei. Não sabia, mas está lá no dicionário – sopa é a jardineira, o ônibus local."
Napoleão Mendes

12.8.10

Matuto no Fitibó

(Wilson Aragão)
Hoje o pessoá do mato
Já está se acivilizano;
Já tem rapaz istudano
Pras banda da capitá;
Já tem moça que namora,
Com o imbigo de fora
Etc, coisa e tá.

Mas essas coisa eu estranho,
Me dano i num acumpanho
A tar civilização.
Nem qui a morte me mate,
Nunca fui numa boate,
Nunca vi televisão.

E esse tar de cinema?
Eu num sei nem cuma é;
Se é home ou se é muié,
Se é da lua ou do só.
Um teatro eu nunca vi,
E também nunca assisti
Um jogo de fitibó.

É isso mermo patrão!
Eu nasci pra sê matuto,
Vivê cuma abicho bruto,
Dando di cumê a gado.
E eu só sei qui sô gente,
Purquê um véio meu parente
Disse que eu sô batizado.

Mas pru arte do pecado
Os fi de cumpade Xico
O fazendêro mai rico
Daquele meu arrebó,
Cum priguiça de istudá
Inventô de inventá
Um jogo de fitibó.

E no pátio da fazenda
Mandô butá duas barra;
E eu fui assisti a farra
Dos lote de vagabundo;
Qui quando eu vi, afroxei,
Acridite qui eu achei
A coisa mió do mundo.

Eu cabôco lazarino,
Cum dois metro de artura,
Os braços dessa grossura,
Medo pra mim é sulipa;
Di jogá tive um parpite,
E aceitei logo o convite
Pru modi pegá de quipa.

Me dero um carção listrado,
E um par de joelheira,
Também um par de chuteira,
E uma camisa de gola.
Eu gritei: arrá diabo!
Que eu já peguei tôro brabo,
Sustentei pelo rabo,
Pur quê num pego uma bola?

Sei qui o jogo cumeçô.
O juiz bom e honesto,
Que por sinal é Ernesto
O nome do apitador;
Qui mitido a justicêro,
Pru modi o jogo pará,
Bastava a gente chutá
A cara do cumpanheiro.

Bola vai, bola vem;
Um tar de Zé Paraíba
Inventô de dá um driba
No fíi de Chica Brejeira;
Esse lhe deu uma rasteira,
Que o pobre do matuto
Passou foi cinco minuto
Rebolando na puêra.

O juiz mandô chutá
Uma bola contra eu,
Porque meu fubeque deu
Um chute no Honorato.
Aí o juiz errô,
O fubeque que chutô
Ele que pagasse o pato.

Mais afiná, meu patrão,
Num gosto de confusão;
Mandei o cabra chutá
E fiquei isperano o choque.
Finarmente a bola vinha,
Vinha tão piquinininha,
Que nem bala de badoque.

Quando eu fui pegá a bola
Me atrapaiei, meu patrão;
Passô pur entre meus braço,
Bateu numa região,
Foi bateno e eu caíno,
Ispuliano no chão.

O povo bateu inriba,
Me deu um chá de jalapa,
Uns três copo de garapa,
E um chá de quixabeira.
Quando eu tive uma miora,
Joguei a chuteira fora
E saí batêno a puêra.

Daquele dia pra cá,
Nem mode ganhá dinêro,
Num jogo mais de golêro
Nem cum chuva, nem cum só;
Nem aqui, nem no diserto
Nunca mais passo nem perto
Dum campo de fitibó.

19.6.10

"... a tal extremo lhe cagára o juízo..."



Não deixo esse prefacio, porque a affeição do meu defunto amigo a tal extremo lhe cagára o juizo que não viria a ponto reproduzir aqui aquella saudação inicial. A recordação só teria valor para mim. Baste aos curiosos o encontro casual das datas, a daquelle, 22 de Julho de 1864, e a deste.
Rio, 22 de Julho de 1900.
Machado de Assis. 

18.6.10

O Livro

Quem abrir Meu livro
Vai ver como Eu livro
Cada servo Meu...

Como é estrita
Qualquer uma escrita
Sem revelação...

Quem Meu livro aberto
Ler de peito aberto...
Pode em meio a lida
Encontrar a vida,
Conhecer o Autor.
Pode em meio a lida
Conhecer a vida,
Encontrar o Autor.
(Wolô)